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Monday, October 31, 2011

das mulheres de trinta


São interessantes as afinidades entre Maria, de 'Play it as it Lays' de Joan Didion, e Marta, de 'Transa Atlântica' de Mónica Marques. Embora personagens pertencentes a universos distintos — geográficos, geracionais, culturais — as narrativas apanham ambas numa mesma faixa etária: a casa dos 30. Nesse específico período etático de uma mulher, que vai do golpe de misericórdia final na inocência ao primeiro vislumbre da crueldade do envelhecimento, a maioria já amou, deixou, sofreu, fodeu ou gritou. Umas, muito de tudo; outras, um pouco mais do que nada. Algumas foram ainda mães, sozinhas pelo caminho, sobretudo, ou muitas vezes nele tão mal acompanhadas. 'Maria' e 'Marta', cada uma à sua maneira, possuem gravado o código sentimental de um percurso universal e contemporâneo; feminino.

A uma aparente independência de costumes & vícios, legado da Modernidade, subsiste da mesma forma uma prisão consequente da imutabilidade da condição humana: a necessidade de afecto. Há também memórias — há sempre memórias — que despoletam no Presente receios e confusões; ou erros e omissões. As mulheres de trinta já sabem o que querem e muitas vezes também já o tiveram para consequentemente o perderem. Ou assim o crêem. Por culpa de incertezas, suas e de outrem, de abandonos, de desinteresses ou até das sogras, como algumas o fazem notar.

Em resumo e apesar de tudo, as mulheres de 30 ainda acreditam. Mas só mais uma vez.


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Charlotte Rampling —como Jacqueline Bisset, Jessica Lange, Angie Dickinson, Sophia Loren e muitas outras— é a prova de que uma mulher pode ser atractiva e desejável em quase todas as fases da sua vida. De barely legal a housewife, de milf a mature.

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Numa relação, vírgula, sentimental, há que ter tento na língua quanto à manifestação de impressões pessoais. Seja na forma de um reparo sincero ou de uma provocação pueril, de uma confidência passada ou de um desejo para o porvir, tudo o que se diz fica gravado na memória de quem escuta. Os dias passam e estas impressões pessoais — umas verdadeiras e sentidas, outras insignificantes — tornam-se numa espécie de lascas subcutâneas emocionais. Não se vêem, mas continuam à espera de sair sob pressão. Quando tal acontece, geralmente numa discussão, rasgam a pele e saltam para a conversa num tom quase sempre descontextualizado, quase sempre cruel e definitivamente sempre chantagista. Para evitar o desconforto, ou a injustiça, talvez seja prudente seguir desde o início o conselho do conhecido 'Miranda Warning': you have the right to remain silent. Anything you say can and will be used against you in a court of law.

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Falando de manifestos da emancipação feminina pela mão de homens não podemos deixar de lembrar Choderlos de Laclos. O escritor francês, autor do conhecido puzzle libertino 'As Ligações Perigosas', produziu no ano 1783 um ensaio (e antes disso um breve discurso) sobre a educação das mulheres. Tamanha teorização deveu-se ao facto de a Academia de Chalons-sur-Marne ter lançado um concurso, reflectindo o zeitgeist Iluminista, que questionava os intelectuais sobre "quais os melhores meios de aperfeiçoar a educação das mulheres?". Laclos, homem de armas e de letras, respondeu.

Primeiramente, no discurso, afirma suportado pelo seu silogismo 'onde existe escravatura não pode haver educação: em todas as sociedades as mulheres são escravas; portanto, a mulher social não é susceptível de educação' que não há assim nenhum meio de aperfeiçoar a educação das mulheres. Ou seja, tal não será possível enquanto a mulher estiver subjugada ao poder masculino. Por isso mesmo apela para que não se deixem "iludir por promessas enganadoras ou o socorro dos homens", pois, da parte destes, não há verdadeiramente qualquer intenção de transformação. Laclos foi peremptório: só se escapa à escravatura com uma grande revolução.

Meses mais tarde retoma o assunto do discurso e escreve o ensaio "Das Mulheres e da sua Educação", no qual contrapõe, numa influência nostálgica e rousseauniana, as vantagens da «mulher natural» perante a «mulher social». A liberdade, o poder e a felicidade foram retirados às mulheres pela Sociedade, pois os "homens pretenderam tudo aperfeiçoar e tudo corromperam". Mas Laclos não deixa de ser uma vítima dos seus tempos. No último capítulo, dissertando sobre beleza e conduta femininas, remete a mulher para uma esfera familiar e privada, acentuando acima de tudo e contraditoriamente o seu papel de objecto.

No final, o que conta é a intenção. Laclos pelo menos tentou.

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Aqui,



Richard Serra, Drawings
Work Comes Out of Work, 1976/77



A Avenida Passos está cinza. Olhando para qualquer direção. Outras cores são passageiras: carro não dura, gente também não, até a faixa de pedestres já não destaca a prudência. Camille acha que somente o relógio laranja favorece a imaginação. Fora ele, o que parece ser, é. Como os porteiros, extensões perfeitas da portaria. A calça social marrom, puída, carrega o desgaste do mesmo tempo que assinou madeiras e assoalhos. E assim vai. O tempo age no homem da Avenida Passos, assim como a Avenida Passos cruza o tempo do homem e a Avenida Presidente Vargas. Objetivamente. Se não olhar pro céu, como Camille diz.




Thursday, October 13, 2011

MEIO DIA NO LARGO DO MACHADO -
sobre uma contradição que não consigo resolver


Jaime Martinez


Tenho sonhado - quase diariamente - com a realização plena daquilo que toma meus pensamentos há alguns meses. Ao despertar, num primeiro momento, me ocorre uma felicidade absurda por viver o desejo em imagens e poder senti-lo em ação, mais próximo e quente. Depois, uma melancolia sacana. Porque aquele sonho é só um sonho, dormindo ou não ----- Mas é o que tenho e não posso perder.



Wednesday, October 12, 2011



  1. Marianne: If only we could meet as the people we were meant to be. And not as people who try to play the parts that all sorts of powers have assigned to us.

    Johan: I'm afraid that's impossible. The masking starts in the cradle and goes on all through life. No one in the world can find himself, as you say.

    Marianne: It's not true. I live a much more honest life now than I've ever done.


    Johan: And happier?

    Marianne: All that talk about happiness is nonsense. My greatest happiness is to eat a good dinner.

Saturday, August 06, 2011


Fan Ho

Thursday, August 04, 2011

IMAGENS DE CAMILLE


video

Monday, August 01, 2011

Monday, July 25, 2011


QUANDO O GAROTO DO CACHORRO MARROM
ENCONTRA O GAROTO DO CACHORRO AZUL



Quis estar lá duas vezes. Mas prolonguei a estadia em Brasília e no domingo seguinte tentei acabar com a água do Rio de Janeiro. Repetidamente, limpei com dedicação cada unha dos pés e das mãos. Ih. Não vou chegar a tempo, constatei aliviada. Li "Todos os cachorros são azuis" na esquina do quarto, dividindo o fôlego com as cartas escritas pelo meu irmão enquanto ficou internado. Foi preciso muita coragem para assistir a peça de teatro adaptada do livro de Rodrigo Souza Leão.

Ensaiei uma crise de mau humor poucas horas antes de partir para a Gávea. O amigo não se comoveu: vigiou o relógio e escolheu minha roupa. No trajeto, senti uma saudade brutal do meu irmão e, por uma série de motivos, essa saudade é sempre dominada pela culpa. O primeiro surto aconteceu em 2005. No mesmo ano, me mudei para o Rio porque perdi a fé e ninguém pode perder a fé diante de quem só tem isso para se agarrar. Quando fiz as malas, descobri que não era mãe. Até então era este o papel que eu pensava ter. Tenho a impressão que ele também acreditava nisso. Mas essa é a minha história.

Os atores colocam em cena fragmentos de um autor já desintegrado. Mas a narrativa está longe do nonsense. Em cacos, a arte sobrevive assim como a esquizofrenia. Há mensagens claras de amor e delicadeza. Mas, entenda, claridade e lucidez não são sinônimos, muito menos para um esquizofrênico. Todog é uma homenagem nítida à vida que se sobrepõe à loucura, mas não deixa de assumi-la. No livro Rodrigo declara, dispensando nosso juízo: "Nunca comi merda. Nem sou dado a rituais macabros de existência. Sou um louco light, versão diet. Apesar do meu problema com o chip ser punk demais". Gabriel Pardal e Ramon Mello, em especial, representam com gerenosidade os Rodrigos que percorrem minha genética (Obrigada, queridos.)

O cachorro do meu irmão é marrom. É um boxer, musculoso e sereno, que o acompanha pela casa todo o tempo. Na pior crise, foi o único a levar porrada para em seguida ser nomeado Grande Irmão, com o meu em prantos. Tonico fez família recentemente. Meu irmão se formou em Gestão Ambiental, fez estágio no zoológico, está procurando trabalho (o plano é ir para uma ONG na Amazônia) e é apaixonado por fotografia, música e poesia. Vários amigos jogam sinuca com ele aos domingos. Meu irmão gosta de pescar, chegou ontem de Formoso do Araguaia (onde tirou essas fotos meses atrás).

Ele não gosta de briga. Ele gosta dos pensamentos simples. Essa é a linguagem que, para mim, ser humano comum, geralmente precisa ser traduzida. Veja só, Rodrigo Super Herói, precisamos traduzir Todog! O mundo calmo e de amor é uma estranha teoria. Talvez esse seja nosso grilo.

A platéia engole: "Com quantos paus se faz a canoa da realidade?"


Eu já descobri que ela afunda. Há dias duros, prova de natação em mar aberto, mas é bom que seja assim.




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