SILÊNCIO
Vi há pouco a vida estendendo os braços e
eles saíram por uma porta neoclássica
tão esguia quanto minha novata lucidez.
Penso em como são importantes os espasmos,
não há vergonha do que por ser contrário,
me faz agora querer-te com paciência.
Essa é a ordem de todas as coisas e das moças.
E dos pássaros.
Depois de uma pausa de efeito dramático
já com o retalho de terra limpo de detritos
afundamos o pescoço, inclinamos a cabeça
e seguimos marcando tempos suaves no compasso.
Parece silêncio.
E só assim posso pedir o amor com plenitude.
Sunday, February 07, 2010
Monday, December 21, 2009
Sunday, December 20, 2009

CADERNOS: Quando a sra. fala que o poeta olha a árvore e vê o ser da árvore contido plenamente em seu nome, está se tratando aí de uma experiência estética mais ampla ou de algo que tem a ver com a nomeação, com a palavra propriamente dita?
A. Prado: Não sei se sei responder isso. Vamos ver: a experiência se revela em palavra, certo? A palavra é a carne da experiência; existe, portanto, uma ocupação anterior.
CADERNOS: Se no fundo dessa árvore, como se qualquer ser, existe Deus, descobri-lo, nessas circunstâncias, seria a função do poeta?
A. Prado: Poeta não tem função neste sentido de "utilidade" - ele vai ali, tem a experiência e tal. Eu acho que a poesia é um fenômeno da natureza, igual a tempestade, rio, montanha.
CADERNOS: Fenômeno mesmo, no seu sentido original, grego, de "aparecer"?
A. Prado: Sim, sim. Poesia não é algo que eu crio com palavras; sento e falo: "Agora com estas palavras vou criar isso ou aquilo". As palavras de servem na medida em que dão carne a uma experiência anterior. Eu só posso escrever porque existe essa experiência anterior. Eu posso até cutucar um pouquinho em alguma palavra e ela me despertar a coisa, mas essa coisa que a poesia desperta é que é o grande mistério. Para mim, é o corpo de Cristo; ela é uma encarnação da divindade, é um experimento do divino. E o máximo desse experimento é um Deus que tem carne, que no caso é Jesus. É o caminho de poesia possível.
CADERNOS: E a importância de nomear?
A. Prado: Deus é logos e o filho de Deus é o Verbo.
CADERNOS: Ou seja, a poesia existe quando há "encarnação".
A. Prado: Quando há uma encarnação. Eu preciso da carne das palavras, não é? Ou da carne da pintura, da carne do som - estou falando de arte, de um modo geral. Nós estamos falando não do poema, mas da poesia que ele sustenta, que ele dá.
CADERNOS: No ensaio do crítico Antonio Hohlfeldt sobre sua obra, que estamos publicando neste número, ele chama a atenção para o cuidado que a sra. tem ao batizar seus personagens. Pensando no Cratilo de Platão, como a sra. situa o problema do nome das coisas - elas, de fato, estão identificadas com os nomes que ganharam ou, neste assunto, a sra. é mais nominalista, isto é, acredita que os nomes sejam arbitrários?
A. Prado: É curioso o Hohldfelt falar isso. Os nomes são importantíssimos, mas eu não nominalizo. O nome tem que ser a coisa.
CADERNOS: O ser tem o seu nome. Uma árvore se chama árvore...
A. Prado: Porque a "arvorice" dela cabe só ali, naquele nome.
CADERNOS: E por que em, digamos, inglês este ser é chamado de tree?
A. Prado: Não, não, isso é outra coisa; estou falando da categoria ontológica. Sabe como eu resolvo isso aí? Achei o negócio. Eu acho assim: não existe palavra, palavra é coisa, é sentido. Essa mesa aqui é mesa apenas por causa da coisa. Então o que é a palavra? É a coisa. A que nós damos um nome, no caso, entre aspas, "arbitrário".
CADERNOS: A poesia, portanto, transforma a coisa em coisa?
A. Prado: Se não for assum, não é nada. É aquele negócio do "escrevo a tarde, não a palavra"...
CADERNOS: Poesia é coisa?
A. Prado: Na poesia a palavra vira a coisa. Aí é que está a unidade consubstâncial.
--
Entrevista concedida à equipe do Caderno Literário do Instituto Moreira Salles, em plena quaresma, na casa de Adélia em Divinópolis/MG
via @Maykson de Souza
O ALFABETO NO PARQUE
A.P., in: Terra de Santa Cruz.
Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
“cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas”.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.
Tuesday, December 08, 2009
AVES DO PARAÍSO
São duas da tarde como ontem
por isso perdi minha fé nas aves do paraíso.
A única coisa que consegue me emocionar faz tempo
lanço-me na lembrança apenas pela saúde
só assim consigo reconstruir meu rosto
sem as baratas de kafka e burroughs
que esses dias tive que matar com saliva.
Há dias que acordo com o padre antônio
ele sussurra que nunca concedeu meu completo exílio de minas gerais
e faz sinal da cruz na minha testa com o polegar cheio de cuspe
aquele português magro e narigudo
não sei o quer de mim.
Se entendo deus em letras minúsculas
e tantas vezes me comove seu afeto
já é o bastante para que o pai de tantos
descanse durante minhas noites
para que eu possa -
com as janelas cuidadosamente trancadas -
engolir sozinha
o desespero
bicho que não foi feito por ele e nem pelos homens.
NEM UM VERSO EM DEZEMBRO
Adélia Prado
Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade, como a chamou Francisco: irmã.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma idéia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a idéia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato, a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
Adélia Prado
Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade, como a chamou Francisco: irmã.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma idéia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a idéia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao mundo.
Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato, a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
Sunday, November 15, 2009
"Lentamente, vou compreendendo o absurdo da tarefa que me propus. Tenho a sensação de tentar ir a algum lugar, como se soubesse o que quero dizer, mas quanto mais longe vou, mais seguro me sinto de que o caminho rumo ao meu objetivo não existe. Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. E, mesmo que eu consiga fazer algum progresso, não estou nem um pouco convencido de que vá me levar aonde penso estar indo. Só porque vagamos sem rumo no deserto não significa que exista uma terra prometida.
...
Pareço atormentado, assolado por alguma incapacidade mental de me concentrar no que estou fazendo. Vezes seguidas vi meus pensamentos se desviarem do objeto à minha frente. Tão logo penso uma coisa, ela evoca uma outra, depois outra, até que há um acúmulo de detalhes tão densos que sinto que vou sufocar. Nunca antes estive tão consciente da fenda que separa pensar e escrever. Nos últimos dias, de fato, comecei a sentir que a história que tenho que contar é de algum modo incompatível com a linguagem, que o grau de sua resistência à linguagem dá a medida exata do quanto me aproximei de dizer algo importante, e que quando chegar o momento de eu dizer a única coisa verdadeiramente importante (suponho que ela exista), não serei capaz de dizê-la"
(Paul Auster, A invenção da solidão)
...
Pareço atormentado, assolado por alguma incapacidade mental de me concentrar no que estou fazendo. Vezes seguidas vi meus pensamentos se desviarem do objeto à minha frente. Tão logo penso uma coisa, ela evoca uma outra, depois outra, até que há um acúmulo de detalhes tão densos que sinto que vou sufocar. Nunca antes estive tão consciente da fenda que separa pensar e escrever. Nos últimos dias, de fato, comecei a sentir que a história que tenho que contar é de algum modo incompatível com a linguagem, que o grau de sua resistência à linguagem dá a medida exata do quanto me aproximei de dizer algo importante, e que quando chegar o momento de eu dizer a única coisa verdadeiramente importante (suponho que ela exista), não serei capaz de dizê-la"
(Paul Auster, A invenção da solidão)
Friday, October 30, 2009
WHEN YOU ARE OLD
- Yeats
WHEN you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
- Yeats
WHEN you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
Monday, October 19, 2009
"Uma mulher sempre sabe como está sua aparência a cada dia. E que um beijo na mão, primeiro, não deve doer, segundo, não deve ser molhado, terceiro, deve ser dado nas costas da mão. Homens sabem ainda melhor do que mulheres como deve ser um beijo na mão, certamente também Albu.
(...)
O veneno é eu acreditar que meu cérebro escorrega para a frente, sobre a cara. É humilhante, não há outra palavra, sentir-se descalça no corpo inteiro. Só que, quando a melhor palavra ainda não é suficiente, não se pode dizer muita coisa com palavras."
[Herta Müller, vencedora do Nobel 2009, em O compromisso]




