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Saturday, April 21, 2007

PÊSSEGO

As unhas pintadas
correm em suas costas do início ao fim
fazendo marcas cheias de sexo
de pecado assinalado por nuances
bege, rosa, vermelho claro,
vermelho sangue, bege
que fazem de você um tato descontrolado
pernas bambas lábios secos
barriga dentro e fora
palavras cortadas pela respiração
obscenas de tanta verdade
enquanto a língua em primoroso estado
desenha na pele aveludada.

Thursday, April 12, 2007

JULGAMENTO

É tão difícil chorar no final do dia
Mas hoje não.
O corpo que dissimulava o cansaço,
de exigências copiosas,
rapidamente cede bravo e feio.
O cabelo parece seco, as unhas não feitas
os jeitinhos do charme esquecidos em minha rigidez
a pele cheirando ao banho por obrigação
e os olhos, talhados,
imploram pra não mais olhar quando chega essa hora.
Tudo está gasto
e só agora vejo que esse agouro se formou de pequenos motivos.
Tem dia que vejo as horas passarem
esperando que se cumpram logo
marco na agenda datas que ainda não vivi
mas estão cheias de compromissos inadiáveis
como se chegar lá fosse certo
e mais forte que a realidade de amanhã.
No outro dia me pego domando um zoológico que fiz faminto
quando deveria estar displicente, como as moças fazem
e escuto uma voz diabólica de não sei onde
querendo ser mais forte que meus próprios medos.
Rezo só quando acho que não vou conseguir
mas, mesmo assim, rezo arrogante
achando que honra tenho eu
invés de Deus, que nunca aparece.
Tenho levantado da cama sem receber o amor que tenho
com tanto medo de perdê-lo, peco em não ler minha sorte
e poupo as levezas pra ficar aflita em silêncio.
Parece que esse cansaço é tão cheio de culpa
mas não assumo e nem quero perdão,
mal me confesso!
Caminho como se não pudesse ter o sono
e nem as fragilidades comuns da vida.
É, MEU CARO LOCKE



O estado de natureza do homem é a insegurança.

Sunday, April 08, 2007

BACK TO SEVENTEEN's


Esse feriado na casa dos meus pais me levou a revirar meus arquivos no computador da casa. E encontrei mais de sessenta poesias escritas em 2001, quando eu tinha 17 anos. É esquisito reler. A escrita amadurece mesmo, igual manga e a gente. Colo abaixo três delas.


O ANJO E O CACHORRO

Eu que queria ter um anjo meu
com a roupa mais cretina
cheirando mofo de telhado
e eu ensinasse ele a comer com garfo e faca.
E mais um cachorro meu
que ninguém se tornasse amigo
nem soubesse o nome do bichinho
e eu mostrasse que é só comigo que se dorme.
Eu que queria um amor tão meu
assim meio anjo, meio cachorro
que me catasse em um vôo de asas
e me guiasse pelas estradas
procurando a melhor lata de lixo.
E o meu amor pelo anjo, pelo cachorro
seria mesmo caladinho
entre um osso e um pensamento
um beco e um arranha-céus
uma nuvem e um chão sujo.


A LÍNGUA DO LODO AO LICOR

E a gente sustenta o lixo
E a gente engorda o luxo
Dá um chute no bicho
Dá um trato no bucho
E vem a poesia bem linda
Falar da vidinha do mundo
E essa rima porca
E esse verso sujo
Acaba sem saber
Se faz parte do lixo
Ou se é arte com luxo.


STATUS

O homem parou de fumar
Economizando
Pagando as prestações do cinzeiro trago da China.

Thursday, April 05, 2007

LAR É ONDE O CORAÇÃO ESTÁ

Decidi em cima da hora visitar a família em Minas. E mesmo suportando 14 horas na poltrona ao lado do banheiro, no ônibus convencional, a alegria é muita. Casa dos pais tem sons e cheiros que só ela tem, aí fico descalça todo o tempo como se fosse ainda uma pirralhinha. Visito avós que acham que estou cada vez mais bonita e contam pra todo mundo "Minha neta mora lá no Rio de Janeiro!". Servem bolos assados e fritos, biscoito, doce de leite com queijo, pão de queijo e, indiscutivelmente, a mesa mais farta é a mineira. Minha afilhada, coitada, com minhas visitas esporádicas, esquece e lembra que eu sou a madrinha dela. Todo mundo fica atrás mandando ela me chamar de madrinha; pra ela, eu devo ser um saco. Tudo parece seguro, ainda mais sair pela madrugada e voltar pro quarto ainda cheio de bichos de pelúcia, fotos do colegial e a cama da Jaque ao lado. Ah, os amigos da época do colegial, que são ainda meus melhores amigos, já me ligaram pedindo a cerveja de chegada. E lá vou eu, com a certeza que esse universo é a única coisa não-perecível que eu conheço.

Tuesday, April 03, 2007

RUA DO CATETE

Na Rua do Catete as pessoas não fazem confidências
Transitam com pressa, contidas de algum alarde íntimo
Se esbarram, assustadas e carentes
O comércio ambulante é o único som dessa catástrofe áfona
São versos livres sobre peixes no saco plástico, colares,
utensílios de cozinha, bonés, livros, produtos piratas e Avon
O calor entorpece quem pára pra ver
- Madame, madame!
- Madame, madame!
Nem parece que a poucos metros dali fica o mar
E que temos uma pequena chance de conciliação

As construções soberbas e velhas
são o próprio castigo da gente.

Sunday, April 01, 2007

EXPECTATIVA

Se caminhar em sua alma e encontrar
uma sequer expectativa, queime-a.
Faça incêndio tombando sete velas
ou se achar que a contrapartida
é demasiadamente covarde, invés de precavida
apenas reze antes de dormir,
também sete terços.

A expectativa é moléstia de cabeça
ou é brincadeira de espírito.
Se não cumprida, vira-se bicho burro
Fica besta, perde o trecho, desamarra o vagão
Tome nota porque o efeito colateral é certeiro:
olha-se no relógio de pulso de dois em dois segundos.
Lá no interior se o combinado é da chuva vim em Agosto
se natureza não honra, o matuto fica doente,
chora na beira da plantação
esquece da mulher e dos filhos, fica egoísta na desilusão.

A expectativa é de gente que vê coisa
mas, no amor, vê com o coração.

Prepara-se a lenha antes do fogão.
Prepara-se o corpo antes do filho.
Prepara-se o amor antes da comunhão.

A expectativa é dor criada e culpa solitária
mas também é se perder procurando um caminho.
GRANDE DESEJO

Depois de tanto tempo, voltei. Poderia contar aqui uma historinha do meu processo de mudança de Minas para o Rio, a parte que virei adulta em pouco tempo, os versos me acharam fastidiosa e agora tenho várias contas a pagar, mas não, deixa pra próxima. Volto tão feliz. Lendo esses dias o blog do Carpinejar, me deparei com um post que ele reproduziu um diálogo com o pai, que disse algo como "ou você esquece o mundo ou esquece os versos". Foi um cutucão. O mundo estava me ocupando tempo integral, agora eu resolvi apelar. Pô. Agora vou sacanear você, poesia.
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