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COTEJO MUDOA cidade não responde às 5 da manhã desordeno passo pela rua ainda casta sem seus cheiros de lifestyle objetos suspensos tudo o que é, é. Só a casa verde de Santa Marta fica à minha vigília me olha, também sem soberba acompanha minhas observações e não confirma. Fixo e disparo: Ao acordar, todo o caso será diferente Os objetos, antes inertes, ganharão vozes cores, curvas, pernas compridas. Despertarão os vícios e os homens para eles, hospícios e cadeias. Toda matéria terá aparentemente propósitos e correspondências para os formatos, boxes para o ardor, ar-condicionado para o castigo, second life. Invado o sono urbano com minha insegurança olho pro morro, lá no ponto alto aproveito o silêncio só estamos as duas imploro a proibição das próximas horas. A casa verde parece sorrir uma árvore erguida naquela desconstrução não faz nenhum juízo só me espera dissimulada todo amanhã às 5 da manhã.
EMISSOR E RECEPTOREssa semana, após intempéries no diálogo com o DIRETOR, fiquei refletindo sobre a forma que me comunico com as pessoas. Sei bem, e desde de todo o sempre, que não faço uso de "querida" e nem repenso o que quero informar procurando orações mais amenas para florear o que deve ser dito, então talvez eu tivesse culpa e meu modo imperativo tomando proporções agressivas. Mas acho indispensável o "por favor" e tenho o hábito de falar com a equipe usando o plural, ou seja, "nós" temos que fazer isso e isso. Eu não poderia ser esse monstro mal educado totalmente responsável pelos ruídos na comunicação. Com toda essa auto-análise rolando, acabei encontrando Roberto DaMatta na TV falando exatamente sobre essa FALSA DELICADEZA que invade o tratamento interpessoal. Dizia ele que, quando jovem, era rotulado de rebelde, mais tarde de agressivo, hoje ele se defende explicando que é simplesmente uma pessoa veemente. Ao falar, ele é direto, pontua bem seus pensamentos e é um defensor da clareza do discurso. Há sim quem fique chateado esperando que eu acaricie seu ego antes de me posicionar, mas, baby, essa não sou eu. Não sou delicada para mascarar a falta de argumento, usando reticências adoidado pra tentar preencher uma cabeça vazia. Quando não sei, não sei. Alguém vai me ensinar. Se sei que é melhor A do que B, não gaguejo. Enfim, apropriei-me de toda a entrevista do DaMatta para dormir em paz e achar que o DIRETOR precisa mesmo é de amigos, alguns chopps e outras coisitas para aniquilar essa sua imeeeensa carência afetiva.
 IRMÃOMinha prole elegida meu motivo, meu sumo meu sangue animado, a parte acertada de mim. Um sopro, um anjo matutino as sobrancelhas mais lindas que já vi amparar o silêncio e a candura. É a minha fotografia preferida meu garoto, meu homem, meu conjunto. Somente posso dizer o que é, agora, desesperada, sei que é minha totalidade e como posso salvar-te se sempre foi você a minha salvação? Esquizofrenia desgraçada filha da puta peste dos pensamentos do meu menino como irá tirar de nós o sono dos próximo anos? as namoradas dele que ainda irei detestar? Como desconcerta o melhor de todos os feitos, se foi dos céus que nasceu aquela inocência ao me chamar de irmã e ter fé em minha força? Você é a crise, a desordem, a perversidade vou escrever e falar seu nome virará a pior das crueldades do mundo com meu grito até me devolvê-lo incólume e bonito como o tirou de mim.
PERSONAGEM
Tristes são os personagens nascidos para as atribuições quantos mortos mesmo bravos quantos apaixonados envenenados quantos enganados outros erradamente julgados quantos olhos mal vistos! Quantos desconsolados em metrópoles quantos caminharam por toda Minas Gerais quantos viraram o mundo! Atravessaram mares rasgaram terra e fizeram civilização quantos traídos por mulheres, homens, pátrias quantos ainda bebem café e não dormem até os dias de agora. Quantos esquecidos, repousando no livro fechado Quantos?
Da experiência de ter publicado um livro aos 16 anos, o que mais me assustava - além da própria poesia - era o colégio todo achando que quando alguém morria na minha poesia, eu conseqüentemente chegaria arrasada na escola. Os julgamentos sobre minha pessoa eram totalmente vinculados à minha escrita. Além do "eu" ou "ela" serem sempre eu pra eles, arrumavam destinatário para as poesias. Esses dias lendo essas estrofes de Octávio Paz, "A tinta verde cria jardins, selvas, prados, folhagens onde gorjeiam letras, palavras que são árvores, frases de verdes constelações", que me veio essa lembrança à cabeça. O poder da imaginação é ad infinitum, eles não sabiam. Hoje alguns conhecidos ainda questionam meu humor pelo que lêem, mas não tolero. Fico puta quando resumem dessa maneira a criação de uma poesia ou conto, como se fosse um "hoje levantei da cama, estou mal..." só que com metáforas. Se fosse por aí quase todo diário de adolescente seria potencialmente um livro ou todos os grandes escritores já teriam uma vida vezes tantas com as peripécias de seus personagens. E detesto quando chamam poesia ou conto de TEXTO.
UM RISCO,
porque gosto mesmo é de escrever poesia. De vez em quando vem uma vontadezinha de prolongar as palavras, gastar o papel, escrever em parágrafo. Eu, sinceramente, releio e detesto, quando releio. Beth é meu único conto que mantém boas relações comigo. Mas deixo Ana pra vocês lerem, porque algum poeta já disse (não me lembro quem) que é absolutamente necessário escrever coisas cretinas. Os contistas que me perdoem.
ANA Ana cortava a praça encontrando justificativas para, naquele dia, ter perdido o amor. Talvez por isso, traída por si mesma, não tinha sequer reparado como a praça pela qual sempre passou estava ultimamente tão suja e fétida. Nada poderia ser pior que o próprio asco. Todos envolta comentavam sobre o desleixo que as autoridades da cidade tratavam aquele lugar que antes servia para as crianças como um parque, sala de estar para os velhos amigos e suas cartas de baralho desgastadas. Ela olhava para os pés e só levantava o rosto para dificultar o cair descontrolado das lágrimas, estava com medo de algum conhecido se aproximar. Cansada, sentou no último banco que dava vista pra rua, dividindo com mais um senhor de olhar opaco, crianças onde, algumas em pé, formavam uma roda e faziam barulho com risadas e exclamações em voz alta, uma senhora que insistentemente procurava algo em sua sacola. Quis observá-las mais, poder perder-se em suas suposições mirabolantes sobre a vida alheia, estar fora da cena. Olhou por mais alguns segundos e lembrou-se da infância e de seu pai que a levava para comer pastel na feira aos domingos e num certo dia fez as malas acabando com a inocência do final de semana. Chorou pouco por esse motivo, não era essa tristeza que tinha esgotado as últimas horas do seu corpo magro. Ela tinha se apaixonado por um cara legal. Dialogavam num dialeto próprio, como os casais fazem. Ela estava insuportavelmente feliz, como nunca tinha deixado estar. Estranhou, contava às amigas sobre o amor como se fala do câncer, a palavra proibida, ria com nervosismo falando sobre sua insegurança e sua natureza que sempre arruina qualquer felicidade. Dizia que sua cabeça não dá tréguas, cria cobras, propagandeia qualquer outro caminho, insulta suas escolhas, chinga a noite toda até ela achar que está aprisionada e obedecer. A mando, ela acatou a estabilidade da solidão, o comodismo que os finais nos trazem, o direito de sofrer para se dar razões reais. Atravessou a rua sem conferir o semáforo, seus pensamentos em desordem procuravam. Andava correndo os olhos pelos bares, em algum lugar deveria estar. Deveria encontrar uma pessoa interessante pra dar-lhe novas idéias, uma bebida altamente alcóolica, um bêbado chato que tomasse seu tempo. Onde estava a mulher louca, dessas que vivem nos arredores das praças, impedindo os passos para vender qualquer objeto curioso? Não podia ir pra casa, tinha que encontrar qualquer sentido que adiasse sua punição. Ouvir os cachorros de rua, cumprimentar os graços de sempre, tomar uma cerveja e fumar o cigarro mais necessário de sua vida. Poderia até entrar na farmácia 24 horas e escolher uma nova tinta para o cabelo, estar ruiva no dia seguinte. Queria encontrar algum prazer para fazer uso sem moderação e estar pronta para a beleza da inconseqüência. Pensou em mudar de nome. Esquecer o endereço. Quebrar todos os CDs preferidos, comprar um animal e voltar à praça para dar o grito do renascimento. Eram tantas vontades dentro de poucos quilos que Ana apagou o cigarro e correu até a praia decidida. Como os outros pequenos barquinhos, lançou-se para não ter margens e impaciências.
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