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Friday, August 31, 2007

PORRA, ATÉ O UNIVERSO ME ABANDONOU!

O ENAMORADO

Este arcano revela que a situação se encontra sob seu mais puro livre-arbítrio - não há nada, nem humano, nem espiritual ou algum processo cármico que esteja interferindo no momento. É interessante observar que neste arcano não existe um caminho correto, certo ou verdadeiro, pois em matéria de desejo, cada qual tem seus parâmetros, valores e ponderações; o que é certo para uma determinada pessoa pode ser errada para outra. Este arcano sugere que esta situação é o seu ponto de vista e não uma determinação do destino ou de outras pessoas! O que está ocorrendo no momento é que você se encontra dividido entre a razão e a emoção, gerando dúvidas e ansiedade totalmente inúteis; portanto o aconselhamento mais indicado seria seguir os passos do coração, mas será que você tem forças mentais para isso? Creio que não... Em todo caso, a escolha deve ser sua, não do seu destino ou do oráculo! Eles não tem nada haver com isso! Podemos extrair uma reflexão para você: "A liberdade tem o seu preço: o livre arbítrio; o livre arbítrio tem o seu peso: a escolha do caminho correto!"

Tuesday, August 28, 2007

Chuvoso durante o dia e à noite.
26ºC
16ºC
70%
5 mm


a vida é líquida
bebida teor mil
secreções na cama
frases cuspidas entre fluidos
feliz, a vida é água
amanhã, a vida é sangue de dentro
sometimes, sangue de fora
calotas polares quando vai embora
capilaridade sensual
tesão em gotas e bolhas daquele
a vida é líquida
chopp gelado pra desprezar
que a vida é líquida
até o ponto do congelamento
o afeto desatento
a fase da matéria no nosso final.

Wednesday, August 15, 2007

ELLA

Ela abre a porta.
Vestido Herchcovitch, mas a maquiagem é de quinta.
Fico horas investigando o que nela é verdadeiro
testo os mais variados assuntos
ela não se perde, avisa quando está falando besteira
é linda quando tem razão:
tem mania de levantar um pouco o rosto
e gesticular com charme
sem estender muito os cotovelos
deixando as pontuações perto dos seios.
Dá vontade de comê-la enquanto fala.
Ela diz que o esmalte é Carmen
a carência dela é fake
quero agarrá-la pelos cabelos até ela confessar
mas continua me mostrando suas músicas preferidas de jazz.
Ela é tão bonita que me deixa constrangido
me leva pro inferno várias vezes
enquanto passeio com meus olhos pelas suas pernas firmes.
Ela me pergunta o que foi
como se não soubesse que estou prestes a cometer um crime
e segue cantando, trepando com seu próprio gosto
me achando um idiota, sem sequer investigar.

Monday, August 13, 2007

ATÉ O DIA EM QUE O CÃO MORREU, Daniel Galera

Nunca escrevi um romance, mas acredito que para qualquer autor a satisfação acontece quando no leitor coisas acontecem. Marcela, do "Até o dia em que o cão morreu", me pegou. Em casa, reli a última parte várias vezes. Coloquei o livro na bolsa, queria postar aqui minhas impressões sobre ele e falar com entusiasmo sobre as pessoas que ainda têm excitação da alma. Gosto tanto de pessoas arrebatadoras, daquelas que acabam com a vida enquanto predicado. Se aparentemente nada acontece na história, fico ainda por descobrir se há alumbramento maior que ter o privilégio de receber um convite à paixão. Eu queria saber o endereço dele e sacudí-lo, mas fumei um maço de marlboro pra passar a raiva. Cara, peralá, I want so much to open your eyes. Coloca na mochila suas camisetas velhas, seu único tênis, cata o cachorro e, porra, você é um em milhões de caras que não irão terminar a vida com aquela mulher que pede receitas à sua mãe. Você está vacilando. Instabilidade? O que mesmo você está deixando pra trás? Então fique com todas as escolhas que fizeram por você e o imã da pizzaria na sua geladeira. E bem descrito na orelha do "Até o dia em que o cão morreu": (...) uma geração sufocada por uma realidade cinzenta, avessa a qualquer ilusão externa aos seus rituais desumanizantes. Eu arrebentei minha coleira com os dentes, só pode ser.



"Tou com a passagem, já, pra daqui a onze dias. E já pensei muito sobre isso, então tenho certeza do que vou dizer: queria muito que tu fosse comigo. Nossa, eu já imaginei isso de tantas maneiras. Essa minha amiga tem contatos que podem me ajudar a conseguir trabalho, e tu poderia dar aulas de português, é certo que ia conseguir alunos, ou senão tu pega um desses empregos que os brasileiros pegam por lá, tipo entregador de comida, pedreiro, faxineiro, balconista, ah, sei lá, qualquer merda, só não quero que tu venha me dizer que é impossível porque não é. É só tu conseguir uma passagem de ida, não pode ser tão difícil assim. A gente pode ficar na casa dessa minha amiga por um tempo, nós dois, ela tá avisada dessa possibilidade. Enfim, acho que tu já entendeu. E eu cansei de falar, nem lembro mais por onde comecei, espero não ter falado muita merda. E antes de desligar eu só quero que tu me diga se topa ou não o que eu tou te propondo. Alô, tu tá aí? Me responde. Eu posso esperar, não tem problema. Ahn? Fala pra fora, porra. Isso foi um sim ou foi um não?"

Thursday, August 09, 2007

SOM DA PESADA


Clara Crocodilo

(Arrigo Barnabé)

São Paulo, 31 de dezembro de 1999. Falta
pouco, pouco, muito pouco mesmo para o
ano 2000 e você, ouvinte incauto, que no
aconchego de seu lar, rodeado de seus
familiares, desafortunadamente colocou
este disco na vitrola, você que, agora,
aguarda ansiosamente o espocar da
champanha e o retinir das taças, você,
inimigo mortal da angústia e do
desespero, esteja preparado... o pesadelo
começou. Sim, eu sei, você vai dizer que é
sua imaginação, que você andou lendo
muito gibi ultimamente, mas então por
que suas mãos tremeram, tremeram,
tremeram tanto, quando você acendeu
aquele cigarro... e por que você ficou tão
pálido de repente? Será tudo isto fruto da
sua imaginação? Não, meu amigo, vá ao
banheiro agora, antes que seja tarde
demais, porque neste mero disco que você
comprou num sebo, esteve aprisionado
por mais de 20 anos, o perigoso marginal,
o delinqüente, o facínora, o inimigo
público número 1, Clara Crocodilo...

Quem cala consente, eu não me calo
não vou morrer nas mãos de um tira
Quem cala, consente, eu desacato
não vou morrer nas mãos de um rato
Não vou ficar mais neste inferno
nem vou parar num cemitério
Metralhadora não me atinge
não vou ficar mais neste ringue

Ei, você que está me ouvindo, você acha
que vai conseguir me agarrar? Pois então,
tome...
Já vi que você é perseverante. Vamos ver
se você segura esta...
Meninas, vocês acham que eles querem
mais?
Querem sim!
Você, que então é tão espertinho, vamos
ver se você consegue me seguir neste
labirinto.

Clara Crocodilo fugiu
Clara Crocodilo escapuliu
Vê se tem vergonha na cara
E ajuda Clara, seu canalha
Olha o holofote no olho,
Sorte, você não passa de um repolho


Onde andará Clara Crocodilo? Onde
andará? Será que ela está roubando algum
supermercado? Será que ela está
assaltando algum banco? Será que ela está
atrás da porta de seu quarto, aguardando o
momento oportuno para assassiná-lo com
os seus entes queridos? Ou será que ela
está adormecida em sua mente esperando
a ocasião propícia para despertar e descer
até seu coração... ouvinte meu, meu
irmão?

Friday, August 03, 2007

EGOTRIP #1: O SOFRER

Tenho absurda admiração pelo chorar. Se diante da página em branco, me pego embasbacada com a voracidade das minhas mãos, chorando cortejo cada lágrima que desce pelo meu rosto branco. Parece uma folha, inteligível apenas a mim mesma. Cada pranto é um livro inteiro, que geralmente não sei tornar tal escrita universal; gozo sozinha de todo aquele espetáculo secreto. Uma mulher chorando é um charme, penso. O único problema é que esse gênero bonito também é muito perigoso. Penso em nós como animais altamente adaptáveis às condições da vida, o que nos torna corajosas demais e o pós-choro, já nos encontrando menos frágeis e elegantes, é o momento de guerra. Se contra nós, estapeamos nossos instintos como quem mata um boi em plena seca. Se contra outrem, multiplicamos a mesma ausência de pena. Talvez um homem também seja assim, mas não acredito que haja força e falta de compaixão mais linda que a nossa. Com meus sofrimentos, vario entre lady e crapulosa. Passo por estágios que vai desde essa interação delicada com o choro ao momento em que decido matar o que me fere com apenas uma pancada. Em surdina, me entendo e me decido, mesmo se a aflição tiver outros sujeitos. Sofro egoísta e muda. Surpreendo os envolvidos que, ainda em reflexão, não se deram conta que eu já estava em processo de cura e, pior!, ainda perdidos, me vêem logo com data marcada de partida. Tenho gastura de problemas prolongados. Os amigos não sabem mais o que dizer e quem deveria ser o herói de toda a situação caótica prorroga a tomada da espada e seu triunfo com tanta covardia que você se pega lutando sozinha e bolando táticas bobas de salvação. E quando eu me pego assim, ridícula, procuro inconscientemente uma forma de me auto-sabotar, porque o caos totaaaaaaal resulta em medidas drásticas e só assim a paz volta a reinar. Até que a gente se canse da paz. Mas aí já é uma divagação pra depois.

Wednesday, August 01, 2007

OS PERSONAGENS FICAM







Oscar: My only talent, if you can call it that in my case, is that I love this little world inside the thick walls of this playhouse, and I'm fond of the people who work in this little world. Outside is the big world, and sometimes the little world succeeds in reflecting the big one so that we understand it better. Or perhaps, we give the people who come here a chance to forget for a while, for a few short moments, the harsh world outside. Our theater is a little room of orderliness, routine, care and love.
[Bergman. Fanny och Alexander, 1982]

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