SÃO SALVADOR REVISITED
Aceito as novas ruas e as novas colorações que o céu propuser
com olhos atentos, partirei alegre às janelas que esperam ser abertas
às veredas que aguardam passos e alguma intenção de voz e vida
mas na alma surge a lembrança daquele sobrado que acolheu meu imenso ânimo
quando às vezes, com terror, escureço a vista pras existências que começam.
Há lugares e feitos que não podemos esquecer para dar seguimento à própria história
lá, ladrilhos azuis guardam a inocência dos primeiros medos
a extensa escada ainda é matéria dos meus sonhos
e metáfora do amor que começava a ser vivido pacientemente
como quem avista uma cama macia mas precisa ir degrau por degrau
pra ter a graça de entrar pela casa e adormecer entre seus cheiros e ruídos.
São Salvador é minha terra.
Nessa rua nasceu meu Rio de Janeiro inteiro
e o sentido maior do mundo.
Revejo a vizinhança e o balançar das suas árvores
com lágrimas nos olhos, não queria estar anônima do meu endereço.
Faço perguntas tristes diante de sua porta
mas sou outra e ela é outra -
já está habitada e eu tão estrangeira
mas não me estranha
guarda ainda meus segredos pro sono tranqüilo
e não me tira nada do que me deu.
São Salvador ainda me encoraja.
Lá é prelúdio de minha peregrinação
é onde parei o mesmo trem de Viramundo
peguei o mesmo boi pelas unhas
saídos da mesma Minas e da mesma vontade de andar.
São Salvador é tão pequena e acanhada que ninguém acredita
em como andei feliz por todo seu asfalto
as pessoas e as sensações que se extenderam.
São Salvador me deu o homem que até hoje me encanta
me deu a certeza de que posso mudar... mudar...
e se me perder, há um lugar pra me buscar.



