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Monday, March 31, 2008

Anne Bachelier

A BATALHA


Jogo com ela enquanto tudo o que se aposta
é vivo
escrevo cada vez mais rígida
entre uma convulsão e outra,
a vírgula entre as linhas.
Aceito nessa hora o desafio de facas na avenida
numerosas setas apontando corpos
escarlates e torpes. Brindo confortável.
A glass of wine, please.

Bebo todos que abarrotados de cobiça me namoram.
Vôo certo,
na direção de um pedaço de carne humilhada sobre o chão
não há espanto, nasci com a música do clímax,
urubus amansados, véus sem fantasias,
o anúncio do meu próximo tango na revista
onde há beleza após o choque.

Uma tática, felinos e maçãs nos bolsos
contra os anseios vertiginosos do seu rosto juvenil
- esse ar ingênuo me implora, tão carente -
enquanto nas cenas reais
a nudez implode cenários, locais dos imensos bichos
vomita em seus gestos sutis, espécie rara de cólera
grito com ela, irrisória e óbvia
com meu ímpeto destruidor.

Ah! Essa ausência de um vestido branco
confessando a pele, reina agora
seu susto ao abandonar a infância, o rosto pálido
essa catequese saliente dos seus traços
evitando o estilhaço, a lama e a fome
onde me faço cada vez mais mulher.




Escrevi essa poesia em Dezembro de 2004. Encontrei-a hoje, dobrada dentro do livro "De Cor" do Armando Freitas Filho. Grande surpresa. Nessa época eu estava nos Estados Unidos, onde, passando pela CFM Gallery em Nova Iorque, conheci o trabalho da Anne Bachelier, artista francesa responsável pela imagem desse post. Sou muito encantada por ela. A exposição "Alice's Adventures in Wonderland" é maravilhosa, mas "Venetian Dreams" é de um poder ilimitado. Ela é foda, pessoal.

Wednesday, March 26, 2008


(Cartier Bresson)

DOR SECRETA

Triste é o sentimento invisível
que consome a fragrância
do meu jasmin de quatro pétalas da Indonésia
na primeira hora de um dia delicadamente condenado.
O grande estrago que não está evidente:
um copo d'água ignorado pelo olhar catatônico,
o prato do jantar de ontem no mesmo lugar,
o coração abraçado por uma dor secreta,
arames, cal e cimento deixados à porta,
a volta ao último plano de um filme nostálgico.
Triste é o anúncio taciturno de uma tragédia.
Tudo o que aflora é silêncio,
tudo o que mexe é falta.

Wednesday, March 19, 2008


DO OUTRO LADO DA RUA


sei o que anda acontecendo por aí
não consegui trancar as janelas
nem desisti das nossas conversas com o demônio
continuo com essa minha estranha solidariedade
que une os pequenos
insetos, vizinhos & planetas

você me quer do outro lado da rua, parceiro
brincando com os psicofármacos na sua mesa de centro
nossas plantas amarelas como nossos dedos
os fios de nicotina envenenando as tardes
essa sua blusa tola de flanela cantando sozinha
a revolução que não acontece
enquanto você se come no espelho

delicioso transtorno mental até você ser interrompido:

O SUSTO

aquele breve grito que somente eu escuto, parceiro.

Saturday, March 15, 2008

ELAS ANDAM POR AÍ


Minhas poesias foram publicadas na edição de março da revista Germina, ao lado de muita gente boa. Elas estão bem aqui. Que beleza.

Wednesday, March 12, 2008

ALGUMAS DO CHUVEIRO














enquanto não tenho assunto e nem sono.

Friday, March 07, 2008

MISCELÂNEA

Estou ouvindo "Adios Lounge", dueto de Bob Forrest e Tom Waits. Não morra sem ouvir isso, faça isso por você. Sobre o show do Dylan, bom é ter grana e, ora bolas, parem de reclamar que o cara não cantou Blowin' in the wind. Você pagou pro cara cantar o que ele quiser, porra! Mas é isso. Ando bastante cansada: trabalhando e bebendo muito. Crise de sinusite, mas prometi que sábado vou cuidar de mim. Hoje vou dar um abraço no Marcelo Alram, fotógrafo, amigo e que está expondo no Ateliê da Imagem seu auto-retrato junto com outros artistas. Vai ser bacana. E vamos esticar por lá, talvez Garota da Urca. Mas o que interessa é que vou namorar a cidade, vou gritar por mais um chopp, vou rir com amigos tão bonitos, vou beijar o meu querido sentada naquele murinho, sabe qual? Mesmo com aqueles riffs da madrugada, vamos ouvir o barulho das ondas. Meio piegas isso, mas pior é alguém falar em homenagem pelo dia das mulheres. Gente cafona. Estou ouvindo "Porque te vas" do compositor Jose Luis Perales enquanto fecho meu barraco aqui no trabalho. Junto a la estación lloraré igual que un niño. Chega. Publish Post e um beijo pra vocês.

Thursday, March 06, 2008

EXATAMENTE ISSO

"Todo humilde é hipócrita. Nunca encontrei um que não tivesse seu preço. O esnobe vale menos do que pensa, o humilde pensa que vale."

Roubei do blog do Bortolotto essa brilhante frase do Douglas Kim.

Sem mais.

Monday, March 03, 2008

AOS MEUS CÚMPLICES


Tento não pensar na minha morte
nas pernas inchadas, na boca enxuta,
uma cama e seu odor nauseabundo
invadindo as narinas dos que foram inspecionar
o tamanho de minha demora.

Terei problemas nas articulações dos pés
e talvez um grande desconforto no
aparelho respiratório -
ou será o fígado que narrará
minha derrota contra a decrescência
ilustrada por aquele verso famoso que ainda hei de escrever?
A tosse derradeira de minha história,
o olhar concluído nas minhas muletas,
os remédios que irão adiar o breu,
todas as dívidas com o medo e o desejo
o que foi abusado e o que se protegeu!

Vou ver a sobra de vida pelo espelho da cômoda
a janela prometendo ao quarto uma luz tom pastel
tão indiferente quanto as vontades cruéis de
última hora.
As pessoas continuarão transitando ao meu redor
despreocupadas e alardeando seus excessos -
falarei sobre meus cúmplices,
os cigarros que me ampararam e
as cervejas da minha biografia,
com a voz já frágil e a ordem do que existiu
débil e insignificante.

Tento não pensar no meu poente
e na mediocridade que poderá ser minha firma -
essa literatice, a personalidade que me traça,
o cansaço das minhas opiniões,
a juventude podre dos meus planos e
a sensibilidade altiva dos meus vinte e poucos.

Tento não pensar.
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