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Friday, August 28, 2009

VERDADES POUCO DITAS DO MEIO LITERÁRIO

(CtrlV do blog do Michel Laub)

Sobre o crítico – Martin Amis diz que um dos problemas da crítica literária é que seu instrumento de expressão, o texto, é o mesmo usado pelo objeto de sua análise, diferentemente do que acontece na música, no cinema, nas artes plásticas, no teatro. Ou seja: ao decretar que um escritor não sabe escrever direito, o crítico no mínimo terá de fazê-lo numa prosa com algum sabor e algum brilho, o suficiente para não cair num certo ridículo. Para irritação dos críticos, que acham essas questões mundanas demais para serem discutidas nas esferas elevadas onde atuam, o fato é que todo escritor, ao ler uma resenha negativa de seu livro, instintivamente trata de avaliar o texto do algoz – e na imensa maioria dos casos, claro, chega a uma conclusão não muito lisonjeira a respeito.


Sobre o escritor – Embora as honrosas exceções, que são em número muito menor que o anunciado, toda obra literária é autobiográfica. Não só naquele sentido geral e cômodo – “o que penso sou eu” ou “a forma como digo é como sou” –, mas diretamente mesmo: pessoas ao redor do escritor, fatos, cenas, sensações, é virtualmente impossível que isso não seja transportado, de uma forma ou de outra, com os devidos disfarces e perfumes, para dentro dos seus livros. Como esse escritor está sempre em busca de assunto, sua vida muitas vezes passa a ter uma função utilitária, num processo que John Updike definiu mais ou menos assim: até decidir se dedicar à literatura, o sujeito sofre as coisas de verdade, porque ainda tem tudo a perder; a partir do momento em que passa a ver nas experiências ruins uma possível matriz de ficção, não é muito difícil transformar “dor em mel”. Dá para acrescentar que, como ainda se acredita que esse mel será mais doce se houver mais dor, em alguns casos patéticos – juro que estou falando em tese, gente – o sofrimento passa a ser quase desejado.


Sobre o escritor que é também crítico – Bem, aí a gente precisa se defender como pode, construindo meia dúzia de argumentos que justifiquem intelectual e moralmente essas mesquinharias todas. Num ótimo ensaio que andou circulando há um ou dois anos, Zadie Smith disse algo interessante sobre T.S. Eliot, segundo quem a personalidade do autor não interessa, ou, num resumo mais grosseiro, texto e autor são inconfundíveis. Pergunta Zadie: será que Eliot não dedicou seu enorme talento para defender essa tese, entre outras razões, porque em sua biografia constava o fato de ter abandonado a própria mulher num hospício?


Sobre a competição entre autores Ao contrário do que diz o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros dos seus colegas. Esse é um dos motivos por que sua leitura nunca terá a mesma isenção da que faz o crítico descompromissado ou o público: frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe diga alguma coisa, para que ele não precise experimentar a sensação auto-corrosiva de vergonha ao elogiar o autor seu amigo no bar. Não há quem prefira ser hipócrita a ser generoso, mas claro que estou falando do que vejo – para minha perplexidade, ouvi dizer que por aí também existe inveja, rancor, mesquinharia.

Sobre críticas ruins – Evidentemente que uma resenha positiva dá uma certa alegria, assim como uma negativa pode estragar a manhã (e o início da tarde, talvez), mas a importância disso é um tanto relativa. De tanto ser cumprimentado por textos que me desancavam, não foi difícil concluir – surpresa – que a maioria das pessoas não lê críticas, ou lê sem muita atenção, ou lê mal. Daí que devemos torcer apenas para que essas críticas a) saiam na imprensa escrita, e não na Internet, onde vão nos assombrar via Google pelo resto da vida; b) tenham títulos e chamadas meio neutros; c) deixem a cacetada lá para o penúltimo parágrafo ou coisa assim: porque aí, numa silenciosa e apoteótica vingança nossa, a chatice, cretinice e irrelevância do crítico que fala mal da gente – os que elogiam são sempre ótimos – afastará o leitor bem antes.

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