Amanhã viajo pra Minas. Sábado vamos comemorar os 50 anos do meu pai. Meu pai é um grande cara. Vou poder abracá-lo e dizer isso olhando nos meus olhos-matriz. Estou muito feliz por poder ir, mas ficar só o final de semana com a família é sacanagem com o coração. Eu acho.
E na segunda tem exposição do Hélio, querido amigo. O convite está abaixo, com os desenhos ducaralho. Apareçam. Comecem a semana vendo coisa boa.
"Antes de mais, pergunta-te 'O que é que eu quero que aconteça?'" - James Lee Stanley A semana acontece deliciosa. Isso porque sábado e domingo foram dias de muito silêncio dentro da minha pessoinha. Uma beleza. Domingo de muita chuva na serra, Milan e Brigite apareceram por lá com bebidas e comida, justamente quando nosso estoque de vinho já beirava o fim. Richard anotava as novas palavras que aprendia em português. Um francês, uma alemã e três brasileiros como professores, rapidamente ele parecia exausto com todos aqueles sentidos, construções, exemplos. Várias canons pela mesa, as pilhas da minha acabaram depois de dois anos e muitas fotos. Fiquei observando a neblina durante horas, os rascunhos de galhos que surgem com ela. Tudo muito acertado, tudo muito bom. A TV que ninguém liga, as frutas para os bichos sendo esculpidas sem testemunhas, o banho de cachoeira sozinha e os desenhos com lápis-aquarela. Dancei rumba, Seu Forbal tocou gaita e cantou em pé abrindo os braços. Ontem foi aniversário do Marcelo e despedida do João que volta a morar no sul. Entre uma fatia de torta suiça com vela improvisada e abraços de saudade precoce, estavam meus grandes amigos. E toda aquela atmosfera que adoro ficar imersa - ah, se pudesse, tempo integral. Dessa vez, mais calada. Só os olhos que se distraíram da tigela de sopa e a minha curiosidade foram acontecimentos. No mais, estava tudo ali - a melhor mesa de bar na cadência de sempre. Os achismos mais convictos e bonitos pra nossa importância. O caminho da amenidade até algum corpo se erguer para o passional e as letras de música encerrarem a noite como um abraço de cellophane.
(João, que Porto Alegre cuide de ti!)
Saiu na Piauí desse mês uma matéria sobre o Milan e também suas fotos de Brasília nos anos 50. Fotógrafo francês, veio criança pro Brasil, praticamente estréia o uso da fotografia colorida na publicidade, registra o Rio assim:
No começo de Agosto, acontece a exposição do Hélio na ABL. Depois divulgo data e horário aqui com um dos desenhos, pra vocês verem o quanto vale à pena ir.
É, o texto (piegas?) era só pra dizer que está tudo muito bem.
quando desejo colocar-te calmo descansando no centro da minha memória sopraninos suspendem a testa, absolvem com a minha paz sua construção inóspita e a estampa desenhada de mau gosto e nós, agora pássaros saltando de beirais distantes atravessamos uma vez a grande pedra até que em seu topo encostamos as asas amavelmente um encontro afônico e para o bem do universo - como se com nossos corpos despercebidos, lá em cima surgisse a nova natureza feita do que melhor em você sou eu
O fato é que enquanto leio sobre Minas Gerais para escrever 50 roteiros até sexta, meu amigo Zito monta um estúdio no cômodo ao lado e grava Mundo Meu. Letra, voz, baixo, bateria, guitarra, programação musical, teclado feitos por ele. A madrugada de hoje vai ser quente - dá-lhe café e Rivotril.
Os grandes amantes escrevem escrevem e com tinta invisível e ferozes criptogramas interpelam os que chegarão em tempos mais ditosos – Ó vós todos daqui deste mundo de mudez inerte desde este grande sem sentido deste mundo tão feio desde algo tão vulgar como este mundo daqui deste mundo televisionado ao vivo e diretamente nós vos saudamos Muitas felicidades Porque o que hoje se diz a partir de dois solitários corações dementes saberá dizê-los em voz alta o amanhã desde muitos milhões desde todos
- trecho de Montserrat Alvarez, que está na última edição da Revista Coyote, e foto de Indiana Caba.