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Monday, December 21, 2009



entre as folhas das imperiais

contas

a receber o que ninguém jurou

vento

vento

como se tudo fosse apenas ventar

e é

antes que tente o coração cobrar


mais alto que o silêncio milagroso das passagens


já bebo 2010

até

Sunday, December 20, 2009


CADERNOS: Quando a sra. fala que o poeta olha a árvore e vê o ser da árvore contido plenamente em seu nome, está se tratando aí de uma experiência estética mais ampla ou de algo que tem a ver com a nomeação, com a palavra propriamente dita?

A. Prado: Não sei se sei responder isso. Vamos ver: a experiência se revela em palavra, certo? A palavra é a carne da experiência; existe, portanto, uma ocupação anterior.

CADERNOS: Se no fundo dessa árvore, como se qualquer ser, existe Deus, descobri-lo, nessas circunstâncias, seria a função do poeta?

A. Prado: Poeta não tem função neste sentido de "utilidade" - ele vai ali, tem a experiência e tal. Eu acho que a poesia é um fenômeno da natureza, igual a tempestade, rio, montanha.

CADERNOS: Fenômeno mesmo, no seu sentido original, grego, de "aparecer"?

A. Prado: Sim, sim. Poesia não é algo que eu crio com palavras; sento e falo: "Agora com estas palavras vou criar isso ou aquilo". As palavras de servem na medida em que dão carne a uma experiência anterior. Eu só posso escrever porque existe essa experiência anterior. Eu posso até cutucar um pouquinho em alguma palavra e ela me despertar a coisa, mas essa coisa que a poesia desperta é que é o grande mistério. Para mim, é o corpo de Cristo; ela é uma encarnação da divindade, é um experimento do divino. E o máximo desse experimento é um Deus que tem carne, que no caso é Jesus. É o caminho de poesia possível.

CADERNOS: E a importância de nomear?

A. Prado: Deus é logos e o filho de Deus é o Verbo.

CADERNOS: Ou seja, a poesia existe quando há "encarnação".

A. Prado: Quando há uma encarnação. Eu preciso da carne das palavras, não é? Ou da carne da pintura, da carne do som - estou falando de arte, de um modo geral. Nós estamos falando não do poema, mas da poesia que ele sustenta, que ele dá.

CADERNOS: No ensaio do crítico Antonio Hohlfeldt sobre sua obra, que estamos publicando neste número, ele chama a atenção para o cuidado que a sra. tem ao batizar seus personagens. Pensando no Cratilo de Platão, como a sra. situa o problema do nome das coisas - elas, de fato, estão identificadas com os nomes que ganharam ou, neste assunto, a sra. é mais nominalista, isto é, acredita que os nomes sejam arbitrários?

A. Prado: É curioso o Hohldfelt falar isso. Os nomes são importantíssimos, mas eu não nominalizo. O nome tem que ser a coisa.

CADERNOS: O ser tem o seu nome. Uma árvore se chama árvore...

A. Prado: Porque a "arvorice" dela cabe só ali, naquele nome.

CADERNOS: E por que em, digamos, inglês este ser é chamado de tree?

A. Prado: Não, não, isso é outra coisa; estou falando da categoria ontológica. Sabe como eu resolvo isso aí? Achei o negócio. Eu acho assim: não existe palavra, palavra é coisa, é sentido. Essa mesa aqui é mesa apenas por causa da coisa. Então o que é a palavra? É a coisa. A que nós damos um nome, no caso, entre aspas, "arbitrário".

CADERNOS: A poesia, portanto, transforma a coisa em coisa?

A. Prado: Se não for assum, não é nada. É aquele negócio do "escrevo a tarde, não a palavra"...

CADERNOS: Poesia é coisa?

A. Prado: Na poesia a palavra vira a coisa. Aí é que está a unidade consubstâncial.


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Entrevista concedida à equipe do Caderno Literário do Instituto Moreira Salles, em plena quaresma, na casa de Adélia em Divinópolis/MG
via @Maykson de Souza



O ALFABETO NO PARQUE
A.P., in: Terra de Santa Cruz.


Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
“cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas”.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.

Tuesday, December 08, 2009


AVES DO PARAÍSO

São duas da tarde como ontem
por isso perdi minha fé nas aves do paraíso.
A única coisa que consegue me emocionar faz tempo
lanço-me na lembrança apenas pela saúde
só assim consigo reconstruir meu rosto
sem as baratas de kafka e burroughs
que esses dias tive que matar com saliva.
Há dias que acordo com o padre antônio
ele sussurra que nunca concedeu meu completo exílio de minas gerais
e faz sinal da cruz na minha testa com o polegar cheio de cuspe
aquele português magro e narigudo
não sei o quer de mim.
Se entendo deus em letras minúsculas
e tantas vezes me comove seu afeto
já é o bastante para que o pai de tantos
descanse durante minhas noites
para que eu possa -
com as janelas cuidadosamente trancadas -
engolir sozinha
o desespero
bicho que não foi feito por ele e nem pelos homens.
NEM UM VERSO EM DEZEMBRO
Adélia Prado

Não quero nunca desejar a morte,
a não ser por santidade, como a chamou Francisco: irmã.
É quase 25 e nem um verso.
Movo as pernas sem conter meus quadris,
como deveria ter feito a vida toda,
pra conquistar o mundo.
Borboletinhas pardas, ciscos, seixos, gravetos,
água de sabão escapando do muro, duram ofertados
enquanto percorro o bairro,
a menina me olha do alpendre ladrilhado
e nem um verso.
Eu primo na minha obra porque é tudo que tenho.
Na casa de três cômodos, de terreirinho escorrido,
a vida é ruim, a alma fica gemendo: ô vida.
Desguio dali uma idéia de suicídio
que paira sobre o telhado junto com a antena do rádio,
mas a idéia volta, e nem um verso.
Preciso me confessar ao homem de Deus:
cometi gula, ansiei pelo detalhe das fraquezas alheias
e mesmo tendo marido explorei meu corpo.
Nem um verso em dezembro, eu que para isso nasci e vim ao mundo.

Minha alma quer copular.
Os magos passam de jato, a estrela se esconde,
chove torrencialmente no Brasil.
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