A LIÇÃO DO AMIGO
"As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e... Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. Mas atualmente as minhas preocupações são as seguintes: escrever dísticos estrambóticos e divertidos prum baile futurista que vai haver da alta roda daqui (a que não pertenço, aliás). Escolher vestidos extravagantes mais bonitos prá mulher dum amigo que vai ao tal baile. E escrever uma conferência sem valor mais que divirta pra uma festa que damos, o pianista Souza Lima e eu no Automóvel Clube, sexta-feira que vem. São as minhas grandes preocupações no momento. Serão desprezíveis para qualquer idiota antiquado, aguado e simbolista. Pra mim são tão importantes como escrever um romance ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé ao alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever de um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem que o que falta a certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que é mais idiota do que ser sinceramente triste"
(Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, 10/11/24)
"As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e... Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. Mas atualmente as minhas preocupações são as seguintes: escrever dísticos estrambóticos e divertidos prum baile futurista que vai haver da alta roda daqui (a que não pertenço, aliás). Escolher vestidos extravagantes mais bonitos prá mulher dum amigo que vai ao tal baile. E escrever uma conferência sem valor mais que divirta pra uma festa que damos, o pianista Souza Lima e eu no Automóvel Clube, sexta-feira que vem. São as minhas grandes preocupações no momento. Serão desprezíveis para qualquer idiota antiquado, aguado e simbolista. Pra mim são tão importantes como escrever um romance ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé ao alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever de um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem que o que falta a certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que é mais idiota do que ser sinceramente triste"
(Mário de Andrade a Carlos Drummond de Andrade, 10/11/24)




